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Radar Por Beatriz9 minutos de leitura30/09/2026 · 09:50

Custo limita acesso a tratamentos com GLP-1 para 65% dos pacientes, aponta pesquisa

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Pesquisa da Febrafar com 1.067 médicos mostra que preço é a principal barreira à continuidade dos tratamentos e aponta espaço para expansão da categoria com maior oferta de medicamentos

A chegada de novas canetas à base de GLP-1 começa a mudar a dinâmica do mercado brasileiro de tratamentos para obesidade e diabetes. Depois da entrada do Ozivy, da EMS, primeira semaglutida sintética análoga ao Ozempic registrada pela Anvisa, o país passou a receber uma sequência de novos medicamentos da categoria. Em julho, a agência aprovou cinco novas semaglutidas e, em agosto, registrou outras duas opções, enquanto em setembro foram aprovados dois genéricos de liraglutida. O movimento amplia a oferta, aumenta a concorrência e cria condições para uma disputa maior por preço e participação no mercado.

Esse processo ocorre justamente em uma categoria na qual o custo ainda representa uma das principais barreiras para a continuidade dos tratamentos. Pesquisa nacional realizada pela Febrafar com 1.067 médicos mostra que 65% dos pacientes interrompem o tratamento ou não conseguem manter a posologia recomendada por limitações financeiras. O levantamento também indica que uma redução de aproximadamente 35% nos preços poderia elevar de 28% para cerca de 45% a parcela de pacientes para os quais o tratamento é considerado financeiramente viável pelos profissionais.

Realizado pelo Instituto IFEPEC em maio de 2026, o estudo ganha relevância diante da aceleração da concorrência observada nos últimos meses. Em julho, a Anvisa informou que os cinco novos medicamentos de semaglutida registrados naquele momento faziam parte do maior volume de aprovações de agonistas de GLP-1 concedido de uma só vez pela agência. Segundo o Ministério da Saúde, o mercado nacional já conta atualmente com 25 produtos disponíveis, em um movimento que também faz parte da estratégia do governo para ampliar o acesso e avaliar a possível incorporação desses medicamentos ao SUS.

Para Edison Tamascia, presidente da Febrafar e da Farmarcas, a entrada de novos produtos pode representar uma mudança importante em uma categoria que até pouco tempo atrás apresentava opções mais restritas. “Estamos entrando em uma nova etapa dos GLP-1 no Brasil. A chegada de novas canetas amplia a oferta e aumenta a concorrência, mas o principal impacto que precisamos acompanhar é sobre o acesso. A pesquisa mostra que existe uma demanda que hoje não consegue ser plenamente atendida porque o custo impede muitos pacientes de iniciar ou manter o tratamento”, afirma.

Mais opções começam a chegar às farmácias

A transformação do mercado já começa a ser percebida no varejo farmacêutico. A Farmarcas, organização responsável por 11 redes e mais de 1.700 farmácias no Brasil, recebeu os primeiros lotes do Ozivy, da EMS, ampliando a disponibilidade de uma alternativa de semaglutida sintética produzida no país. O produto foi registrado pela Anvisa em maio e utiliza o mesmo princípio ativo do Ozempic.

A ampliação não se limita à semaglutida. Em julho, a Anvisa registrou Owozy, Seemasun, Zempneo, Semavy e Orsema, todos à base de semaglutida sintética. Em agosto, a agência também aprovou um genérico produzido pela EMS e o similar Semaclique, da Germed, ambos com semaglutida. Já em setembro foram aprovados dois genéricos de liraglutida, indicados para diabetes e obesidade.

Para Fábio Chacon, diretor da Farmarcas, a ampliação da oferta tende a modificar o comportamento de toda a cadeia, do fabricante ao consumidor. “A entrada de novos produtos muda a dinâmica do mercado porque aumenta as alternativas disponíveis para médicos, pacientes e farmácias. É um movimento que pode favorecer o acesso, principalmente se a concorrência se traduzir em preços mais competitivos e maior disponibilidade dos medicamentos”, afirma.

Segundo Chacon, o varejo também passa a ter um papel mais importante na organização dessa nova demanda. “A farmácia precisa estar preparada para trabalhar com uma categoria que ganha relevância, mas sempre dentro das regras sanitárias, com produtos regularizados, prescrição médica e orientação adequada ao paciente. O crescimento da oferta precisa vir acompanhado de segurança e responsabilidade na dispensação”, destaca.

Preço aparece como principal barreira

A pesquisa da Febrafar mostra que a ampliação da oferta chega em um momento no qual existe uma parcela significativa de pacientes que já poderia se beneficiar dos tratamentos, mas enfrenta dificuldade para sustentá-los financeiramente. Atualmente, segundo os médicos entrevistados, apenas 28% dos pacientes considerados aptos ao tratamento têm condições financeiras de mantê-lo. Com uma redução de aproximadamente 35% nos preços, essa proporção poderia chegar a cerca de 45%.

Para Tamascia, os números ajudam a dimensionar o potencial de crescimento da categoria. “Existe uma diferença importante entre ter indicação clínica para um tratamento e conseguir mantê-lo ao longo do tempo. Se o preço é uma barreira para uma parcela tão grande dos pacientes, qualquer movimento que aumente a concorrência e amplie a oferta pode ter impacto direto sobre o acesso e a adesão”, afirma.

A pesquisa ouviu profissionais de Clínica Médica, Cardiologia, Medicina de Família e Comunidade e Endocrinologia de todas as regiões brasileiras. Os resultados mostram que, embora os médicos reconheçam os benefícios clínicos dos GLP-1, o custo permanece como a principal barreira para que um número maior de pacientes consiga iniciar e, principalmente, manter o tratamento.

Benefícios vão além da perda de peso

Embora as chamadas canetas emagrecedoras tenham ganhado popularidade principalmente pelos resultados relacionados à perda de peso, os médicos entrevistados destacaram benefícios associados a diferentes condições clínicas. Entre os principais resultados observados estão o controle glicêmico em pacientes com diabetes tipo 2, a redução da compulsão alimentar e a perda de peso, além de benefícios relacionados à saúde cardiovascular, renal e metabólica.

A própria Anvisa ampliou, em 2026, algumas indicações relacionadas à semaglutida. O Wegovy, por exemplo, recebeu indicação para redução do risco de eventos cardiovasculares adversos graves em adultos com doença cardiovascular estabelecida e obesidade ou sobrepeso. O Ozempic também recebeu nova indicação relacionada a pacientes com diabetes tipo 2 e doença renal crônica.

“Quando falamos sobre GLP-1, não estamos tratando apenas de perda de peso. Os médicos relatam benefícios importantes para o controle de doenças crônicas e condições associadas à obesidade. Por isso, ampliar o acesso de forma segura e responsável é uma discussão que ultrapassa o próprio mercado farmacêutico”, explica Tamascia.

Concorrência pode alterar estrutura do mercado

A evolução da categoria também ocorre em um cenário de forte estímulo à concorrência. A patente da semaglutida expirou no Brasil em março de 2026 e, desde então, a Anvisa vem priorizando a análise de novos pedidos de registro. Em julho, a agência informou que oito registros de medicamentos à base de semaglutida já haviam sido concedidos somente em 2026 naquele momento.

Em setembro, a Anvisa também aprovou dois genéricos de liraglutida. Como ocorre com os medicamentos genéricos, os produtos passaram por avaliação técnica para comprovação de equivalência terapêutica e, pela legislação brasileira, os genéricos devem ser comercializados por pelo menos 35% menos que os medicamentos de referência.

O movimento começa a aparecer também nos preços. Segundo o Ministério da Saúde, os valores das chamadas canetas emagrecedoras caíram cerca de 70% nas farmácias em menos de um ano. A pasta também estima que futuras compras em escala para o SUS possam resultar em reduções de 80% a 90% nos preços de aquisição.

Para Chacon, a consequência para o varejo será a necessidade de acompanhar uma categoria cada vez mais diversificada. “O mercado está deixando de trabalhar com poucas opções e entrando em uma fase de maior variedade de produtos. Isso exige das farmácias uma gestão ainda mais cuidadosa de estoque, preço, disponibilidade e orientação ao consumidor. A concorrência tende a ser cada vez mais presente e o paciente passa a ter mais alternativas dentro do mercado regular”, afirma.

Uso irregular ainda preocupa profissionais

A expansão da oferta também aumenta a importância do combate à comercialização irregular e ao uso sem acompanhamento profissional. Segundo a pesquisa da Febrafar, em média, 7% dos pacientes chegam aos consultórios informando já ter utilizado medicamentos da classe GLP-1 sem prescrição antes da primeira consulta.

A Anvisa vem intensificando as ações de fiscalização sobre produtos sem registro. Em setembro, a agência proibiu a importação, armazenamento, distribuição, comercialização, propaganda e uso da chamada caneta T36, por não possuir registro sanitário e não ter sua segurança e eficácia avaliadas no Brasil.

“Quanto maior o mercado, maior também precisa ser a responsabilidade de todos os envolvidos. O crescimento da categoria deve acontecer dentro do mercado regular, com medicamentos registrados, prescrição médica e orientação farmacêutica. Isso é fundamental para proteger o paciente e evitar que a busca por preço leve ao consumo de produtos sem procedência”, afirma Tamascia.

Segundo ele, o farmacêutico desempenha papel estratégico nesse processo. “O farmacêutico é um elo fundamental entre o médico e o paciente. Sua atuação contribui para o uso racional dos medicamentos, para a adesão ao tratamento e para a segurança dos pacientes durante toda a jornada terapêutica”, acrescenta.

Pesquisa ouviu médicos de todas as regiões

O levantamento teve abrangência nacional e contou com a participação de 544 médicos da região Sudeste, 206 do Nordeste, 169 do Sul, 96 do Centro-Oeste e 52 da região Norte. Entre os entrevistados, 59,3% eram clínicos gerais, 21,9% cardiologistas, 10,8% especialistas em Medicina de Família e Comunidade e 8% endocrinologistas.

A pesquisa também identificou que os médicos consideram os efeitos gastrointestinais, como náusea, constipação, vômitos e diarreia, os eventos adversos mais frequentemente relatados pelos pacientes. Ainda assim, a percepção predominante entre os profissionais entrevistados é de que os benefícios clínicos superam os riscos quando o tratamento é realizado com acompanhamento adequado.

Para a Febrafar, a combinação entre demanda reprimida, queda de preços e entrada de novos concorrentes coloca os GLP-1 em uma nova fase no mercado brasileiro. “O que estamos acompanhando é a formação de um mercado mais amplo, com mais fabricantes, mais produtos e mais alternativas para o consumidor. A pesquisa mostra que existe uma demanda que ainda não consegue ser atendida pelo fator preço. Agora, a chegada de novas opções cria a possibilidade de que essa realidade avance, desde que a concorrência venha acompanhada de qualidade, segurança, regularidade no abastecimento e preços mais acessíveis”, conclui Edison Tamascia.

Febrafar GLP-1

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