A indústria farmacêutica brasileira respondeu por 79,2% das unidades de medicamentos adquiridas por estados e municípios em 2024, segundo levantamento da Associação dos Laboratórios Farmacêuticos Nacionais (ALANAC).
O resultado mostra o avanço da produção nacional no abastecimento público, mas também evidencia uma participação ainda limitada das empresas brasileiras nos segmentos de maior complexidade tecnológica e valor agregado.
O estudo cruzou dados do Banco de Preços em Saúde (BPS), do Ministério da Saúde, com pareceres de registro de medicamentos da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A análise do BPS considerou mais de 135 mil registros de compras realizadas entre 2020 e 2024 e classificou os fabricantes a partir do CNPJ.
A base contempla aquisições estaduais e municipais e não inclui compras realizadas diretamente pelo governo federal. O ano de 2024 foi utilizado como referência mais recente porque os registros de 2025 e 2026 ainda estavam em processo de alimentação pelos entes federados quando o levantamento foi realizado.
A participação dos fabricantes nacionais avançou de 69,1% das unidades adquiridas em 2020 para 79,2% em 2024. A ALANAC estima que, caso a tendência observada na série histórica seja mantida, essa participação poderá superar 80%. A projeção, entretanto, não representa um resultado já verificado para 2025 ou 2026, uma vez que as bases desses anos permanecem incompletas.
Inovação ainda concentra participação estrangeira
A presença das empresas brasileiras diminui quando a análise avança para medicamentos de maior complexidade tecnológica. Entre as petições de medicamentos novos e inovadores avaliadas no levantamento, empresas nacionais representaram 12%. Nos produtos biológicos, a participação chegou a 15,2%.
O contraste ganha relevância quando considerado o valor movimentado por essas categorias. Medicamentos novos e biológicos somaram R$ 20,93 bilhões em 2024 no canal Governo da Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos, correspondendo a 81,7% do valor transacionado, apesar de representarem 21,1% das unidades.
Nos medicamentos similares, o cenário é diferente. Empresas de capital brasileiro responderam por 66,7% das petições ativas analisadas. Os números indicam uma indústria nacional fortemente presente nas categorias associadas ao abastecimento em escala, enquanto sua participação permanece menor nos segmentos que concentram inovação e maior valor.
Essa diferença coloca o desenvolvimento tecnológico entre os principais desafios para ampliar a participação brasileira não apenas no volume fornecido ao sistema público, mas também nas áreas mais intensivas em pesquisa, propriedade intelectual e capacidade produtiva especializada.
Política industrial busca ampliar produção nacional
O cenário ocorre em meio ao fortalecimento das políticas voltadas ao Complexo Econômico Industrial da Saúde. Em julho de 2026, a Lei nº 15.471 instituiu a Estratégia Nacional de Saúde do CEIS, estabelecendo como objetivos a redução da dependência produtiva e tecnológica externa e o fortalecimento da produção e inovação em tecnologias estratégicas para o SUS.
A estratégia está relacionada à Missão 2 da Nova Indústria Brasil, que estabelece como meta produzir no país 50% das necessidades nacionais em medicamentos, vacinas, equipamentos, dispositivos médicos e outros insumos e tecnologias de saúde em 2026, com avanço para 70% em 2033.
Entre as cadeias consideradas prioritárias estão medicamentos e princípios ativos biológicos, vacinas, hemoderivados e terapias avançadas, segmentos nos quais o aumento da capacidade tecnológica nacional pode reduzir vulnerabilidades de abastecimento e ampliar a autonomia produtiva do país.
Para a ALANAC, os resultados mostram que a indústria nacional já possui escala relevante no fornecimento de medicamentos, enquanto o próximo desafio está em ampliar sua presença nas categorias inovadoras e de maior valor.
O levantamento foi apresentado durante o III Seminário DIFAN, realizado em 25 de agosto, em Brasília, com representantes do setor farmacêutico e de instituições públicas ligadas às políticas de desenvolvimento industrial e financiamento.



