Parceria anunciada no Reino Unido utilizará inteligência artificial para identificar novos alvos terapêuticos em doenças hepáticas e cardíacas.
A farmacêutica britânica AstraZeneca anunciou, em 15 de outubro de 2026, uma parceria estratégica com a empresa norte-americana de biotecnologia Insitro para acelerar a descoberta e o desenvolvimento de medicamentos por meio de inteligência artificial. O acordo, que pode alcançar aproximadamente US$ 1,5 bilhão, será direcionado à pesquisa de novas terapias para doenças hepáticas e cardíacas de difícil tratamento.
A colaboração reúne a experiência da AstraZeneca em pesquisa e desenvolvimento farmacêutico com a plataforma tecnológica da Insitro, especializada na aplicação de inteligência artificial e aprendizado de máquina à investigação de mecanismos biológicos associados a doenças complexas.
Pelos termos anunciados, a AstraZeneca realizará um pagamento inicial de US$ 40 milhões. A Insitro poderá receber até US$ 1,46 bilhão em pagamentos adicionais, condicionados ao cumprimento de marcos de desenvolvimento e comercialização, além de royalties sobre eventuais vendas globais dos medicamentos resultantes da parceria.
A AstraZeneca terá direitos exclusivos mundiais sobre os programas selecionados no âmbito da colaboração.
Inteligência artificial será aplicada à descoberta de novos alvos terapêuticos. O acordo terá como foco duas áreas terapêuticas: a esteatohepatite associada à disfunção metabólica, conhecida pela sigla MASH, e as cardiomiopatias, grupo de doenças que afetam o músculo cardíaco.
Essas condições apresentam desafios relevantes para a indústria farmacêutica devido à complexidade de seus mecanismos biológicos e à dificuldade de identificar alvos que possam resultar em tratamentos eficazes.
Para avançar nessas pesquisas, a Insitro utilizará sua plataforma Virtual Human, que combina dados humanos e celulares em larga escala com modelos de inteligência artificial.
A tecnologia permite analisar informações biológicas e genéticas para investigar os mecanismos envolvidos no desenvolvimento das doenças, identificar possíveis relações causais e selecionar alvos terapêuticos para novos programas de pesquisa.
A proposta é utilizar essas informações desde as etapas iniciais de descoberta, reduzindo incertezas na seleção de alvos e orientando o desenvolvimento de candidatos a medicamentos.
AstraZeneca assumirá desenvolvimento clínico e comercialização
A divisão de responsabilidades estabelece que a Insitro ficará encarregada de investigar os mecanismos das doenças e desenvolver os programas selecionados até a etapa de identificação de candidatos ao desenvolvimento.
A AstraZeneca será responsável pelas fases posteriores, incluindo estudos clínicos, atividades regulatórias e eventual comercialização dos medicamentos.
A estrutura permite combinar a capacidade de análise de dados da Insitro com a experiência da farmacêutica britânica na condução de programas clínicos e no desenvolvimento de terapias para doenças cardiovasculares, renais e metabólicas.
Segundo Sharon Barr, vice-presidente executiva e responsável por pesquisa e desenvolvimento biofarmacêutico da AstraZeneca, a escolha de alvos terapêuticos representa uma das decisões mais complexas do processo de descoberta de medicamentos.
A executiva destacou que a utilização de inteligência artificial pode ampliar a compreensão dos mecanismos responsáveis pelas doenças e contribuir para identificar alvos com maior precisão.
Daphne Koller, fundadora e CEO da Insitro, ressaltou que a combinação de dados biológicos complexos e modelos computacionais permite investigar fatores que contribuem diretamente para o desenvolvimento das enfermidades.
Para a executiva, a parceria também oferece a possibilidade de transformar essas descobertas em programas farmacêuticos com potencial de desenvolvimento clínico.
Parceria amplia investimentos em IA no setor farmacêutico
A colaboração ocorre em um momento de expansão do uso de inteligência artificial na pesquisa farmacêutica, especialmente na identificação de alvos terapêuticos e na análise de grandes volumes de dados biológicos.
A Insitro já mantém relações de pesquisa com outras farmacêuticas, incluindo Eli Lilly e Bristol Myers Squibb. Essas iniciativas envolvem aplicações de aprendizado de máquina para compreender propriedades de moléculas e investigar mecanismos associados a diferentes doenças.
Para a AstraZeneca, o novo acordo fortalece sua estratégia de pesquisa em doenças cardiovasculares e metabólicas, áreas que integram seu portfólio de desenvolvimento biofarmacêutico.
A farmacêutica busca ampliar a compreensão das relações entre coração, fígado, rins e metabolismo para identificar oportunidades de intervenção em diferentes estágios das doenças.
No caso da MASH, a Insitro já possui trabalhos de pesquisa em andamento que poderão contribuir para a identificação de novos alvos. Os programas relacionados às cardiomiopatias deverão exigir uma etapa adicional de investigação, segundo informações divulgadas pela empresa.
Acordo reforça novo modelo de colaboração entre farmacêuticas e empresas de tecnologia
A parceria evidencia a crescente integração entre empresas farmacêuticas e companhias especializadas em inteligência artificial, com acordos que combinam investimentos financeiros, acesso a plataformas tecnológicas e compartilhamento de competências científicas.
O modelo permite que farmacêuticas incorporem ferramentas de análise computacional aos processos de descoberta, enquanto empresas de biotecnologia utilizam a infraestrutura de desenvolvimento clínico e comercialização de parceiros de maior porte.
Apesar do potencial tecnológico, os resultados da colaboração ainda dependerão da identificação de candidatos viáveis, da comprovação de segurança e eficácia em estudos clínicos e das aprovações regulatórias necessárias.
O anúncio foi realizado pela AstraZeneca, sediada em Cambridge, no Reino Unido, e repercutido pela Bloomberg Línea. A operação representa mais um investimento da indústria farmacêutica em inteligência artificial como ferramenta para investigar doenças complexas e ampliar as possibilidades de desenvolvimento de novos medicamentos.



