Confira a entrevista exclusiva com Danilo Lopes, diretor médico de oncologia e doenças raras da AstraZeneca Brasil
Por Rodrigo Rezende
Em um momento em que a fronteira entre ciência, tecnologia e cuidado em saúde nunca esteve tão próxima, a indústria farmacêutica é chamada a repensar o próprio significado de inovar. Não basta desenvolver novos medicamentos, é preciso garantir que a ciência de ponta chegue, de fato, a quem mais precisa dela.
Para entender como essa transformação vem acontecendo no Brasil, o Pharma Innovation conversou com Danilo Lopes, diretor médico de oncologia e doenças raras da AstraZeneca Brasil. O executivo fala sobre os investimentos da companhia em pesquisa clínica no país, o papel da inteligência artificial na descoberta de novos medicamentos, as parcerias com instituições como o Inca e os caminhos que devem unir inovação científica e acesso sustentável à saúde nos próximos anos. Confira a entrevista completa:
Ao olharmos para 2026, qual é o conceito de “inovação” que rege as diretrizes da AstraZeneca no Brasil e no mundo?
Para a AstraZeneca, inovação é a capacidade de transformar descobertas científicas em benefícios concretos para pacientes, sistemas de saúde e sociedade. Ela não se limita ao desenvolvimento de novos medicamentos. Começa na ciência, mas só se concretiza quando é capaz de transformar a jornada do paciente e gerar impacto real e sustentável.
Em 2026, entendemos que a inovação mais relevante é aquela que consegue gerar impacto real na jornada do paciente, desde a prevenção e o diagnóstico precoce até o tratamento e o acompanhamento da doença. Por isso, buscamos combinar ciência de ponta, tecnologia e colaboração com diferentes parceiros para contribuir com sistemas de saúde mais resilientes, sustentáveis e centrados nas pessoas.
No Brasil, esse conceito também se traduz em investimentos em pesquisa clínica, geração de conhecimento local e iniciativas que ampliem o acesso à inovação para pacientes em diferentes regiões do país. Acreditamos que inovação não é apenas criar algo novo, mas garantir que os avanços da ciência cheguem a quem mais precisa.
O Brasil vem se destacando cada vez mais na rota global de P&D. Quais são os principais resultados já obtidos pela companhia no país este ano e quais metas orientam os investimentos em pesquisa clínica?
O Brasil tem um papel estratégico nessa agenda porque reúne diversidade populacional, relevância epidemiológica, profissionais qualificados e um ambiente regulatório que vem evoluindo. Ao longo deste ano, já atingimos nossas melhores marcas históricas em pesquisa clínica, com grande volume de estudos e inclusão de pacientes brasileiros em estudos globais, especialmente em oncologia.
Até o final de 2026, a AstraZeneca prevê investir R$ 400 milhões em pesquisa clínica no Brasil, reforçando nosso compromisso de longo prazo com a ciência, a inovação e o desenvolvimento do ecossistema de saúde brasileiro. Nos últimos três anos, o total de investimento ultrapassou R$ 1 bilhão. Hoje, são conduzidos mais de 120 estudos clínicos no país, em parceria com mais de 200 centros de referência, fortalecendo a produção científica nacional e ampliando o acesso dos pacientes brasileiros à inovação.
O avanço de áreas como oncologia, doenças raras e medicina de precisão exige novas abordagens terapêuticas. De que maneira as inovações que a AstraZeneca traz ao mercado brasileiro hoje estão transformando a jornada do paciente?
A AstraZeneca segue investindo de maneira consistente em inovação científica para transformar a vida dos pacientes nas áreas terapêuticas em que atuamos. Nossa missão é responder a necessidades médicas ainda não atendidas, ampliando o acesso à inovação e contribuindo para sistemas de saúde mais resilientes.
Globalmente, esperamos lançar 20 novos medicamentos até 2030, mas, para nós, a inovação não se limita ao desenvolvimento de novas terapias. Na AstraZeneca, entendemos que transformar a jornada do paciente exige uma visão integrada, que inclui diagnóstico precoce, medicina de precisão, tratamento, acompanhamento e acesso ao cuidado. Por isso, atuamos de forma holística, combinando ciência, tecnologia e colaboração com diferentes parceiros do ecossistema de saúde. Um exemplo são nossos Programas de Suporte ao Paciente e de Suporte ao Diagnóstico, por meio dos quais oferecemos soluções que auxiliam os pacientes em diversos aspectos de suas doenças, em parceria com stakeholders do mercado.
A inovação aberta e a colaboração com ecossistemas de inovação têm sido um pilar forte do setor. Como a AstraZeneca tem trabalhado essas parcerias estratégicas no cenário nacional?
A inovação não acontece de maneira isolada. Na AstraZeneca, acreditamos que a colaboração com o ecossistema de inovação é essencial para acelerar o desenvolvimento de soluções que gerem impacto real para pacientes e para o sistema de saúde. No Brasil, trabalhamos em parceria com instituições científicas, redes de pesquisa, organizações da sociedade e iniciativas de inovação aberta.
Um exemplo concreto é a parceria que realizamos com o Instituto Nacional de Câncer (Inca) em um estudo inédito que avalia a viabilidade da implementação do rastreamento do câncer de pulmão no SUS. Essa iniciativa busca gerar evidências locais que possam contribuir para o diagnóstico precoce, apoiar futuras políticas públicas e ampliar as possibilidades de cuidado para os pacientes brasileiros. Essa abordagem também se reflete em iniciativas no âmbito do PHSSR (Partnership for Health System Sustainability and Resilience), que reúnem diferentes atores para gerar evidências e apoiar o fortalecimento de sistemas de saúde mais resilientes, sustentáveis e preparados para os desafios futuros.
O uso de dados, inteligência artificial e novas tecnologias digitais tem redefinido o setor da saúde. Onde a tecnologia digital já entrega valor prático nas operações ou nos projetos de saúde da empresa atualmente?
O uso de dados, inteligência artificial e novas tecnologias digitais já gera valor concreto ao tornar a pesquisa, o desenvolvimento de soluções e a tomada de decisão em saúde mais ágeis e baseados em evidências. Hoje, mais de 90% dos projetos de descoberta de novos medicamentos de pequenas moléculas da AstraZeneca utilizam inteligência artificial para apoiar o processo de pesquisa e desenvolvimento, ajudando a acelerar a identificação de potenciais terapias e a aumentar a eficiência da inovação científica.
No Brasil, essa estratégia ganha escala por meio de parcerias com o ecossistema de inovação e empresas de tecnologia, com foco na otimização da jornada dos pacientes. Um exemplo é a parceria que firmamos com uma startup para o uso de inteligência artificial em análise de exames de imagem, voltada à identificação precoce de nódulos pulmonares. Também promovemos iniciativas de inovação aberta e colaboração com instituições de pesquisa e parceiros estratégicos para desenvolver soluções digitais que contribuam para diagnósticos mais precoces em outras doenças, geração de evidências locais e fortalecimento dos sistemas de saúde.
Garantir que a inovação científica chegue ao paciente final é um dos maiores desafios do sistema de saúde. Como a empresa enxerga os caminhos para unir inovação tecnológica e sustentabilidade de acesso?
Inovação e acesso precisam caminhar juntos desde o início. Isso significa investir não apenas em ciência, mas também em diagnóstico precoce, geração de evidências locais, pesquisa clínica, capacitação dos profissionais de saúde e modelos de colaboração que fortaleçam o sistema de saúde como um todo. A própria AstraZeneca tem defendido uma visão de longo prazo baseada em soluções que gerem valor ao longo de toda a jornada do paciente e contribuam para sistemas mais resilientes e eficientes.
No Brasil, enxergamos um enorme potencial na combinação entre inovação científica e fortalecimento das capacidades do sistema de saúde. Isso inclui ampliar a pesquisa clínica, apoiar iniciativas de diagnóstico, gerar evidências relevantes para a população brasileira e construir parcerias com governos, instituições acadêmicas, sociedades médicas e organizações da sociedade civil. Neste âmbito, gostaria de destacar o acesso a estudos clínicos como ferramenta de acesso à inovação.
Olhando para o futuro e para a visão de mercado da AstraZeneca, quais tendências devem transformar a indústria farmacêutica nos próximos anos e qual legado a empresa quer deixar para a saúde no Brasil?
Acredito que três grandes tendências devem transformar a indústria farmacêutica nos próximos anos. A primeira é a convergência entre biologia, dados e inteligência artificial, que está acelerando a descoberta de novos medicamentos, tornando os estudos clínicos mais eficientes e ajudando a identificar quais pacientes têm maior probabilidade de se beneficiar de determinados tratamentos. A segunda é o avanço da medicina de precisão, com diagnósticos cada vez mais sofisticados permitindo tratamentos mais personalizados e melhores resultados para os pacientes. A terceira é a crescente necessidade de construir sistemas de saúde mais resilientes, sustentáveis e focados na prevenção, no diagnóstico precoce e no cuidado integrado ao longo da jornada do paciente.
No Brasil, queremos deixar como legado uma contribuição duradoura para a ampliação do acesso à inovação, o fortalecimento da pesquisa clínica, a expansão da medicina de precisão e o desenvolvimento de soluções que ajudem a reduzir desigualdades em saúde. Isso significa apoiar iniciativas que promovam diagnóstico mais precoce, gerar conhecimento científico local, fortalecer redes de pesquisa e trabalhar em colaboração com governos, sociedades médicas, instituições de saúde e organizações da sociedade civil, para que mais pacientes possam se beneficiar dos avanços da ciência.
No fim, nosso objetivo é que a AstraZeneca seja lembrada não apenas pelos medicamentos que desenvolveu, mas pela sua contribuição para construir um sistema de saúde mais inovador, sustentável e preparado para os desafios das próximas décadas.
O que mais pode fazer a diferença?
Gostaria de destacar um ponto que une inovação, desenvolvimento da ciência no país e acesso à inovação: a pesquisa clínica. A AstraZeneca acredita que o Brasil tem potencial para se tornar um dos principais polos globais de pesquisa em saúde, e queremos contribuir ativamente para essa transformação. Investir em pesquisa clínica é investir em acesso à inovação, geração de conhecimento e desenvolvimento de capacidades que deixam um legado duradouro para os pacientes e para o sistema de saúde brasileiro.



