Por Rodrigo Rezende
A Blau Farmacêutica consolida a sua posição como uma das principais empresas de biotecnologia do Brasil, com investimentos que já somam mais de R$ 800 milhões em modernização industrial desde o IPO e cerca de 11% da receita líquida direcionados a pesquisa e desenvolvimento. Um dos marcos mais recentes dessa trajetória é o desenvolvimento integral do biossimilar de pembrolizumabe, anticorpo monoclonal indicado para mais de 20 tipos de câncer, com chegada ao mercado prevista a partir de 2028.
Para falar sobre as tecnologias estratégicas da companhia, o papel do Inventta ICT — instituto de ciência, tecnologia e inovação fundado pela Blau e pelo Laboratório Bergamo — e os próximos passos da empresa no cenário biofarmacêutico global, conversamos com Uilberson Silva, diretor presidente do Inventta ICT. Confira a entrevista:
A Blau tem se posicionado como pioneira em biotecnologia no Brasil. Hoje, quais são as tecnologias mais estratégicas em desenvolvimento na companhia, e por que elas foram priorizadas?
A Blau tem uma trajetória de mais de duas décadas em biotecnologia e, hoje, estamos avançando no desenvolvimento de medicamentos biotecnológicos para mercados globais, com um olhar para as necessidades médicas e dos pacientes em diferentes áreas terapêuticas. A nossa prioridade está concentrada principalmente em medicamentos biológicos de alta complexidade, biossimilares e anticorpos monoclonais.
Contamos com uma plataforma de pesquisa e inovação para o desenvolvimento de anticorpos monoclonais utilizando tecnologia do DNA humano recombinante e capacidade fabril verticalizada para produção em larga escala de Insumos Farmacêuticos Ativos (IFAs) recombinantes e medicamentos biológicos estratégicos para a saúde no Brasil e no mundo.
Os medicamentos biotecnológicos que desenvolvemos têm a capacidade de ampliar o acesso a tratamentos de última geração, como o biossimilar do medicamento pembrolizumabe, que está em fase clínica, é indicado para mais de 20 tipos de câncer e chegará ao mercado a partir de 2028, trazendo uma vantagem tecnológica e sustentável para a Blau e para o Brasil. Adicionalmente, investimos também em inovações incrementais de alta complexidade para atender a necessidades médicas não atendidas atualmente no país, concentrando esforços em drug delivery, novas formas farmacêuticas e vias de administração para melhorar a adesão dos pacientes aos tratamentos. Utilizar a tecnologia farmacêutica como via estratégica para o futuro é parte essencial da nossa atuação.
O desenvolvimento integral do biossimilar de pembrolizumabe é apontado como um marco para a indústria biofarmacêutica nacional. Pode explicar o que significa desenvolver integralmente um anticorpo monoclonal?
Significa ter no Brasil a capacidade científica e tecnológica de dominar toda a cadeia de produção do medicamento, desde a geração da linhagem celular produtora do IFA, por tecnologia do DNA recombinante, até o medicamento final. No caso do pembrolizumabe, essa jornada envolve o desenvolvimento do clone celular, otimização do bioprocesso, produção e purificação do IFA, caracterização físico-química, biológica e funcional, estudos de comparabilidade, desenvolvimento da composição farmacêutica, estudos clínicos e produção industrial.
A Blau já tem a certificação de Boas Práticas de Fabricação da Anvisa para o IFA do projeto, que também contou com aconselhamento científico da entidade, assim como do FDA e da EMA, seguindo padrões internacionais.
O grande diferencial está nessa integração, que permite à empresa dominar competências críticas de toda a cadeia de desenvolvimento e produção de um anticorpo monoclonal, reduzindo a dependência de tecnologias externas e criando uma plataforma tecnológica que pode ser replicada em outros produtos biológicos de alta complexidade. É uma jornada que exige anos de pesquisa, infraestrutura especializada, conhecimento multidisciplinar e forte integração entre Pesquisa & Desenvolvimento, Pesquisa Clínica, Assuntos Regulatórios e demais áreas da companhia.
Quais são os benefícios para o país?
Para o Brasil, esse marco contribui para ampliar o acesso dos pacientes à imunoterapia do câncer, reduzir a dependência tecnológica externa e fortalecer a soberania sanitária. Também desenvolve competências que podem ser aplicadas a outros desenvolvimentos de medicamentos biológicos, aumenta a capacidade de negociação do país, posiciona o Brasil como desenvolvedor, e não apenas consumidor, de biotecnologia, e ainda promove a formação de profissionais altamente qualificados. Em síntese, transforma conhecimento científico em capacidade tecnológica e industrial, gerando inovação com impacto direto na saúde e no crescimento do país.
Além do pembrolizumabe, a empresa tem outros anticorpos monoclonais em desenvolvimento. Em que estágio estão e quando devem chegar ao mercado?
Temos outros três anticorpos monoclonais biossimilares no pipeline para diferentes indicações terapêuticas e estamos avançando com os programas de desenvolvimento, que estão em estágios diferentes; estamos otimistas com a evolução de cada um. Esses anticorpos monoclonais biossimilares estão sendo desenvolvidos para serem lançados após a expiração das patentes das moléculas, que ocorre, em sua maioria, a partir de 2030, e seguimos mapeando novas moléculas para integrarem o pipeline de desenvolvimento da companhia, alinhadas às necessidades de saúde da população.
O desenvolvimento dos anticorpos monoclonais biossimilares é conduzido de forma integrada pela Blau e pelo Inventta ICT, braço de inovação criado pela empresa, que reforça o nosso compromisso com a produção de medicamentos biológicos de alta complexidade e com o fortalecimento da capacidade tecnológica da indústria farmacêutica nacional.
Que tecnologias o investimento trouxe para as cinco plantas industriais?
A Blau tem um complexo industrial com cinco plantas produtivas, dedicadas a diferentes plataformas de fabricação, incluindo biológicos, biotecnológicos, oncológicos, antibióticos, anestésicos, outros medicamentos injetáveis e IFAs biotecnológicos. Com esses investimentos, foi possível ampliar a capacidade produtiva nas diferentes plantas, com novas linhas de fabricação de medicamentos injetáveis com tecnologias de ponta, e estabelecer uma planta fabril de anticorpos monoclonais para o cultivo celular em biorreatores de larga escala com tecnologia single use e alta capacidade de purificação de IFAs recombinantes, pavimentando assim o futuro da empresa.
Além disso, os investimentos buscam ampliar capacidade, flexibilidade produtiva, automação, robustez dos processos e eficiência operacional.
A empresa também tem investido em digitalização de processos internos, como sistemas de gestão da qualidade. Que tipo de tecnologia tem sido aplicada?
A transformação digital é um dos pilares da evolução tecnológica da Blau. Estamos avançando na automação e digitalização dos processos de produção, laboratório e gestão da qualidade, com sistemas informatizados para gestão e rastreabilidade dos dados laboratoriais e a implantação do Electronic Batch Record (EBR), reduzindo gradualmente o uso de registros em papel e aumentando a eficiência, a rastreabilidade e a confiabilidade dos processos.
Também estamos incorporando inteligência artificial e ferramentas avançadas de análise de dados para monitoramento de processos, identificação de tendências e melhoria contínua, tornando a gestão da qualidade cada vez mais preditiva e baseada em dados. Somam-se a essas iniciativas a bula digital e a unitarização de medicamentos, ampliando a rastreabilidade e contribuindo para maior segurança, eficiência e comodidade na utilização dos medicamentos.
Do ponto de vista do paciente e do hospital, qual é o benefício concreto dessas tecnologias?
Quando consideramos medicamentos de alta complexidade como o pembrolizumabe, trata-se de uma tecnologia capaz de impactar positivamente a vida dos pacientes no tratamento do câncer, pois, além de ser um medicamento de última geração e ainda de alto custo, terá seu acesso ampliado pelo medicamento da Blau, integralmente produzido no Brasil e a custos menores, aumentando a expectativa de vida de muitos pacientes em tratamento oncológico.
As tecnologias empregadas na fabricação dos nossos medicamentos trazem uma melhor rastreabilidade da cadeia de fornecimento até o hospital, garantindo identidade e confiança no fornecimento. A implantação da bula digital e da unitarização para medicamentos nas formas sólidas facilita as rotinas hospitalares, o armazenamento e a distribuição dos comprimidos e cápsulas unitarizados, que são facilmente individualizados na preparação da medicação para os pacientes.
Para a própria Blau, quais são os ganhos de competitividade em desenvolver essa tecnologia internamente?
Com o desenvolvimento do medicamento pembrolizumabe e a produção verticalizada no Brasil, seremos capazes de fornecer essa medicação a custos mais acessíveis e com maior velocidade aos sistemas de saúde públicos e privados no país, trazendo economicidade para a terapia do câncer e impactando de forma ampla a vida de pacientes que precisam desse tratamento. Com o conhecimento adquirido nessa jornada, faremos parte do fortalecimento tecnológico da indústria brasileira.
A companhia investe cerca de 11% da receita líquida em P&D. Como esse orçamento é distribuído?
A companhia tem dois grandes pilares de P&D: medicamentos sintéticos e medicamentos e IFAs biotecnológicos. Os investimentos são distribuídos para o pipeline que está nesses pilares, alinhados ao plano estratégico da Blau, que leva em consideração a complexidade de cada projeto, as fases e o retorno estratégico para a empresa.
A dinâmica é investir mais onde conseguimos combinar impacto para o paciente, relevância estratégica e uma possibilidade real de gerar vantagem competitiva sustentável.
Existe alguma tecnologia em fase de pesquisa ainda não divulgada publicamente que você pode adiantar?
Temos, sim, projetos em diferentes estágios de pesquisa e inovação que ainda não podemos divulgar publicamente e que estão no nosso pipeline de inovação, mas representam soluções em saúde para diversas áreas terapêuticas e públicos-alvo.
O que posso adiantar é que estamos olhando para além do desenvolvimento de produtos isolados. Estamos construindo plataformas tecnológicas capazes de gerar diferentes produtos, especialmente em biotecnologia, anticorpos monoclonais e medicamentos capazes de impactar positivamente a vida das pessoas. A estratégia é transformar conhecimento científico em uma capacidade contínua de inovação.
Olhando para os próximos anos, qual deve ser o principal salto tecnológico da Blau — e como isso posiciona a companhia frente a outras farmacêuticas da América Latina?
O nosso objetivo, olhando para os próximos anos, é consolidar uma plataforma de inovação biofarmacêutica que una ciência, biotecnologia, desenvolvimento clínico, capacidade industrial e conhecimento regulatório.
O pembrolizumabe é um marco importante nessa trajetória. Ele mostra que uma empresa brasileira pode dominar tecnologias extremamente complexas e transformar conhecimento científico em capacidade industrial, com competitividade global. Isso muda a nossa posição no mercado, a Blau não quer apenas fabricar medicamentos, queremos desenvolver e dominar tecnologias, e esse é um diferencial fundamental.
Nos próximos anos, vamos ampliar nossa atuação em biossimilares, biológicos e medicamentos de alta complexidade, fortalecendo nossa capacidade de desenvolver no Brasil, produzir em escala e acessar mercados internacionais como Europa e Estados Unidos.
Acredito que esse é o nosso grande diferencial competitivo. ser uma empresa latino-americana com ciência, tecnologia e indústria integradas, capaz de transformar inovação desenvolvida no Brasil em produtos competitivos globalmente. Mais do que acompanhar a evolução da indústria farmacêutica, queremos ajudar a colocar o Brasil em uma posição de destaque na indústria biofarmacêutica global.



