A expansão do comércio eletrônico com entregas ultrarrápidas está transformando a dinâmica competitiva do varejo brasileiro e ampliando a pressão sobre as redes de farmácias.
Um relatório do BTG Pactual, divulgado em 28 de setembro de 2026, analisa como grandes plataformas de comércio eletrônico e aplicativos de entrega estão convergindo para um modelo de negócio baseado na distribuição de produtos essenciais em períodos que variam de 15 minutos a uma hora.
Conhecido como quick commerce, o modelo combina proximidade logística, tecnologia e disponibilidade imediata de produtos. Além de alimentos e itens de conveniência, a estratégia alcança categorias como medicamentos, higiene e cuidados pessoais, colocando as farmácias no centro de uma disputa por frequência de compra, conveniência e relacionamento com o consumidor.
Para o setor farmacêutico, a transformação representa uma mudança nas expectativas de atendimento. A disponibilidade de produtos em prazos reduzidos passa a influenciar a escolha do canal de compra, especialmente em situações nas quais o consumidor prioriza a rapidez de entrega.
Mercado indiano oferece referência para expansão do modelo
O relatório do BTG Pactual utiliza a Índia como referência para compreender o potencial de crescimento do quick commerce e seus efeitos sobre o comércio eletrônico.
No país asiático, a Amazon anunciou investimentos adicionais de US$ 3 bilhões no serviço Amazon Now, dos quais US$ 1 bilhão está previsto para o ano seguinte e outros US$ 2 bilhões até 2030. A estratégia contempla a expansão para mais de mil centros de distribuição urbanos, conhecidos como dark stores, e a ampliação da cobertura para aproximadamente 300 cidades.
O mercado indiano de quick commerce é estimado em cerca de US$ 8 bilhões. Projeções da Deloitte e do Google indicam que o segmento poderá alcançar US$ 50 bilhões até 2030, atendendo aproximadamente 70 milhões de consumidores.
Entre os principais participantes está a Blinkit, que concentra cerca de 50% de participação no mercado e opera aproximadamente 2.400 dark stores. A estrutura permite manter estoques próximos aos consumidores e reduzir o tempo necessário para separar, preparar e entregar os pedidos.
Segundo a análise do BTG Pactual, a conveniência está se consolidando como um fator competitivo tão relevante quanto preço, variedade de produtos e programas de fidelidade.
A mudança também altera a percepção dos consumidores sobre os prazos de entrega. À medida que o recebimento de produtos em intervalos de 10 a 30 minutos se torna mais frequente, entregas programadas para o dia seguinte podem perder atratividade, principalmente em categorias de consumo recorrente.
Amazon Now amplia presença no mercado brasileiro
No Brasil, a expansão do quick commerce já apresenta movimentos semelhantes aos observados no mercado indiano.
A Amazon lançou o Amazon Now em março de 2026, inicialmente com entregas de produtos de mercearia e itens essenciais em até 15 minutos. Desde então, o serviço avançou para oito cidades, incluindo São Paulo, Rio de Janeiro, Campinas e Belo Horizonte.
A iniciativa também marcou a entrada da companhia na entrega rápida de alimentos frescos e congelados no mercado brasileiro.
Para sustentar a operação, a Amazon utiliza uma parceria com a Rappi e uma infraestrutura logística que reúne aproximadamente 300 instalações no país, conforme os dados apresentados no relatório.
A estratégia evidencia a aproximação entre empresas de comércio eletrônico, plataformas de entrega e operadores do varejo físico, que passam a disputar ocasiões de consumo anteriormente atendidas por canais distintos.
Farmácias enfrentam nova dinâmica competitiva
A entrada de grandes plataformas no segmento de entregas ultrarrápidas amplia os desafios competitivos para as redes farmacêuticas brasileiras.
Tradicionalmente, a capilaridade das lojas físicas representa uma vantagem para o setor, permitindo que consumidores encontrem medicamentos e produtos de saúde próximos de suas residências ou locais de trabalho.
Com o avanço do quick commerce, essa proximidade passa a ser explorada também por plataformas digitais que utilizam centros de distribuição urbanos, integração tecnológica e parcerias com estabelecimentos comerciais.
Nesse cenário, as farmácias precisam considerar não apenas a disponibilidade de produtos, mas também a capacidade de integrar estoques, canais digitais, atendimento e logística para responder à demanda por entregas rápidas.
A competição tende a ser particularmente relevante nas categorias de higiene, cuidados pessoais e medicamentos isentos de prescrição, respeitadas as exigências sanitárias aplicáveis à comercialização e à entrega de produtos farmacêuticos.
O modelo também exige atenção à rentabilidade das operações, uma vez que prazos reduzidos podem aumentar os custos de separação, transporte e manutenção de estoques próximos ao consumidor.
Conveniência ganha espaço nas estratégias do varejo
A análise do BTG Pactual aponta para uma transformação mais ampla no comércio eletrônico, em que a velocidade de entrega deixa de funcionar apenas como um diferencial operacional e passa a integrar a proposta de valor das plataformas.
Para as redes de farmácias, o avanço desse modelo pode acelerar investimentos em digitalização, integração entre lojas físicas e canais digitais, gestão de estoques e parcerias logísticas.
Ao mesmo tempo, a expansão das plataformas de entrega cria oportunidades para ampliar o alcance comercial das farmácias, desde que as operações mantenham conformidade com as normas sanitárias e preservem a qualidade do atendimento farmacêutico.
A experiência indiana demonstra o potencial de escala do quick commerce, enquanto a chegada de novos serviços ao Brasil indica que a disputa pela conveniência deverá ganhar relevância nas estratégias das empresas que atuam no varejo de saúde.
Os movimentos e projeções apresentados integram o relatório do BTG Pactual divulgado em 28 de setembro de 2026, que analisa a evolução das entregas ultrarrápidas e seus possíveis efeitos sobre o comércio eletrônico brasileiro.



