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Pharma InnovationDestaques Empresas & NegóciosO sucesso do Vonau Flash, patente milionária da USP

O sucesso do Vonau Flash, patente milionária da USP

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Patente criada por Humberto Ferraz em parceria com a Biolab é a mais lucrativa para a USP. E pode ser um diferencial às universidades

Há dois anos a patente do Vonau Flash era aprovada. Apesar de lançado no mercado em 2005, a concessão do registro demorou mais de uma década para sair. O sucesso estrondoso do medicamento contra enjoo fez com que a patente do Vonau Flash se tornasse a mais lucrativa para a Universidade de São Paulo (USP), rendendo 18 milhões de reais para a instituição. Para Humberto Gomes Ferraz, um dos criadores do medicamento e agora diretor da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP, o sucesso do produto é a prova de que parcerias entre universidades públicas e empresas privadas (como a Biolab, neste caso) podem beneficiar os dois lados da moeda.

O diferencial do Vonau Flash em relação aos outros remédios de enjoo é bastante simples. Em vez de precisar ser engolido, ele dissolve na boca — o que facilita a administração para crianças ou pessoas que têm dificuldade em engolir comprimidos. Outra grande diferença é o tempo que o remédio demora para ser absorvido pelo organismo: de 15 a 20 minutos, menos que outras medicações. Em 2018, a patente respondia por 58% de toda a receita da USP com royalties de invenções.

Quando Ferraz reparou que, além da ciência feita no laboratório universitário que criou e onde a medicação foi pensada, era preciso praticar também a gestão de negócios e pessoas, ele se capacitou no tema. Sem a gestão, para ele, fica difícil cumprir prazos e respeitar algumas medidas importantes na hora de fabricar uma medicação. “Eu descobri que sem gestão, meu laboratório não iria para frente. Formar um pesquisador com conhecimento em gestão de projetos é muito importante”, explica em entrevista à Exame realizada por telefone.

Agora que assume o cargo de diretor, Ferraz pretende aplicar um pouco (se não muito) de seu conhecimento e sucesso na universidade — a fim de que os pesquisadores aprendam que, além de conhecimento, a gestão de projetos também é um fator muito importante.

Confira abaixo a entrevista completa:

Qual é a receita do sucesso para o senhor?

Uma coisa muito importante que eu falo é que para você poder ter sucesso em colocar o que você faz e o seu conhecimento no mercado, principalmente na área de saúde, são as parcerias. Você montar uma indústria farmacêutica para colocar uma medicação no mercado não é viável. O Vonau Flash começou com uma parceria. Nós tínhamos essa expertise e a Biolab tinha essa demanda.

É a junção dos dois que nos permite chegar no ponto que chegamos. Não adianta você fazer uma coisa e o mercado não enxergar um propósito nisso. Não adianta você criar algo que não seja factível para uma empresa. Tem que der uma demanda de um parceiro e você, com o conhecimento que adquiriu e alavancou ao longo do tempo, você precisa juntar os dois para alcançar algo de sucesso. Foi bem essa a receita.

Desde o começo a Biolab estava conosco, ela ajudou a criar nosso projeto, e a dizer a demanda que eles tinham. O que dá certo é isso.

Como foi o processo de criação da medicação?

O processo seguiu a metodologia comum, até ai não tem muito segredo, na nossa área trabalhamos nisso. Temos um principio ativo para formular, testamos isso em uma máquina de comprimir. Depois do processo de teste, ele passa por um instituto de estabilidade, e depois também capacitamos a empresa para poder reproduzir a formulação em seu ambiente de produção.

Então a empresa prepara toda a documentação para registrar o produto na Anvisa e um pouco antes disso a gente já começa a preparar a questão da patente.

O processo da patente do Vonau Flash demorou 13 anos. Fale mais sobre isso.

No nosso caso temos na USP um escritório de patentes da universidade, que nos deu todo o suporte para avançarmos com essa questão, com o contrato de patentes, a universidade e a empresa são as donas delas. Ela durou treze anos e meio para ser concedida.

As patentes demoram muito no Brasil. Mas há uma mudança em curso.

Foi muito tempo aguardando essa concessão da patente, mas tudo isso rola. O produto foi para o mercado, foi aprovado, inicializou-se a comercialização. Isso foi crescendo, crescendo e hoje temos um produto muito interessante com um volume de vendas bastante expressivo.

E quais as vantagens do Vonau Flash em relação aos outros remédios de enjoo?

Vamos falar em primeiro das vantagens do ponto de vista farmacológicos que não se devem a formulação, mas às moléculas. Nosso remédio não causa aquela sonolência característica de outros fármacos. É uma molécula muito importante. Ela não precisa de água para tomar e isso é uma vantagem impressionante, uma vez que tem gente que tem enjoo quando está viajando, e não precisa de água, a cartela está na bolsa, você tira e pronto. Isso facilita bastante, principalmente na hora da emergência.

Por outro lado fica também mais fácil administrar para uma criança, não para um bebê, como a formulação tem um sabor agradável, costuma ser bem aceito pelas crianças. Essa maneira mais fácil de administrar facilita bastante a vida do paciente. Essa foi a ideia que levou a criação da formulação.

“Quando você quer dar uma aula diferente, fazer alguma coisa, tudo é projeto, inclusive a nossa carreira, mas pouca gente tem formação em gestão de projetos e lá atrás essa foi uma preocupação minha. Eu senti que precisava conhecer essa administração”

É a importância do parceiro. Eu insisto nisso porque é ele quem vai colocar o produto no mercado, ele que vai divulgar o produto, se você não tem um parceiro com a mente aberta, que vai fazer algo diferente, às vezes a ideia não prospera.

Qual a importância de um remédio desse porte para o Brasil e para as universidades públicas?

O produto está até fora do Brasil, já é comercializado no Equador também. Para as universidades… isso é muito interessante, até hoje, e eu tenho números recentes, a patente do Vonau já rendeu para a USP cerca de 18 milhões de reais.

Se nós fizermos uma conta bem simples e imaginarmos que apenas 1% dos pesquisadores conseguem alcançar isso, e que nós temos hoje cerca de 5.600 docentes, se 1% deles conseguir alguma coisa desse tipo, é um número muito modesto, nós teremos então 56 pesquisadores, vezes 17 milhões. Nós chegamos a 952 milhões de reais. É um volume de recursos expressivos, em uma conta modesta.

É uma complementação muito boa, vale notar que eu já recebi dinheiro público de Fapesp, CNPQ, mas isso não corresponde talvez nem a 5%.

O dinheiro vem praticamente todo da iniciativa privada, hoje temos 27 no nosso laboratório, com dificuldades na pandemia, obviamente, porque ficou tudo muito complicado, mas conseguimos manter uma estrutura razoável. É uma alternativa para nós para complementação, que eu acho que é bastante válida, bastante importante.

Quando se está negociando a patente, é feito um contrato entre os titulares, e lá está previsto quanto de royalties seria pago pela empresa à universidade, isso é estabelecido previamente. Uma vez que o dinheiro começa a divisão dele, uma parte vai para o pesquisador, uma com a universidade, uma com o docente, a resolução atual que regulamenta essa questão distribui os recursos.

Com dois anos da patente, o que mudou desde 2018 até agora para a medicação?

Não mudou muito em relação a termos de mercado, de aumento de vendas. O que faz um produto aumentar as suas vendas é a questão de que os médicos prescrevem, ele é muito bem aceito pelos pacientes e isso acaba virando algo muito bem aceito na comunidade.

O que o senhor pretende mudar na Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP agora que será o diretor

Nós temos várias ideias e algumas um pouco diferentes. Trazemos um pouco dessa experiência e eu gostaria muito e parte dos votos que eu tive veio exatamente dessa expectativa dos colegas de que a gente pudesse aplicar esse conhecimento na faculdade.

Ela tem um potencial enorme para se conectar de forma mais avançada ao mercado, a iniciativa privada, e nós gostaríamos muito de nos dedicarmos para poder fazer com que a faculdade avance nesse sentido. Essa é uma expectativa de alunos, que vão ter uma experiência melhor, porque estamos muito próximos do mercado e os alunos do laboratório estão muito mais preparados para lidar com a indústria farmacêutica. Os pós graduandos e os docentes também querem ir ao mercado e colocar seu conhecimento no mercado e os nosso funcionários também.

Queremos trabalhar o sistema de gestão de uma forma que a gente consiga aumentar o número de funcionários para lidar com isso. Temos todos uma proposta para trabalhar isso de modo que a gente consiga que o trabalho dos funcionários seja otimizado, como os 142 funcionários da universidade farmacêuticas, os técnicos administrativos.

Este ano, teve a eleição para diretor e eu me candidatei e nossa campanha foi vitoriosa. O interessante disso é que a campanha trazia uma visão de que claramente tínhamos ideias diferentes, inclusive de universidade.

Desde o começo, trabalhei em projetos com empresas, então basicamente tudo que construí em meu laboratório veio da iniciativa privada, inclusive foi dai que surgiu o Vonau Flash, que é a maior patente da universidade. Nesse envolvimento, sempre fui muito ligado à profissão farmacêutica e temos pouco conhecimento de gestão e eu descobri que sem gestão, meu laboratório não iria para frente, me voltei para estudar isso, fazendo cursos, correndo atrás, me capacitando, e isso foi ficando ainda mais interessante.

Agora tenho um laboratório que possui uma componente de gestão forte, inclusive com 5S, com nosso programa de qualidade, com recrutamento de pessoas. Nosso processo é como o de uma empresa. E lá a gente foi desenvolvendo essas questões e a ideia é aplicar uma parte disso pelo menos na faculdade de ciências farmacêuticas.

E como funciona o laboratório?

Eu sou o criador e coordenador do laboratório, ele é da universidade, e tem essa experiência em trabalhar com as empresas. Ele é fruto do meu aprendizado e da minha experiência, inclusive com visitas às universidades no exterior, você vai verificando os modelos existentes e vai configurando uma forma de trabalhar. Esse laboratório foi criado nesse ambiente.

E por que a gestão é tão importante nessa área?

Todo mundo na universidade trabalha por projetos, as nossas pesquisas são projetos, mas não é só isso. Quando você quer dar uma aula diferente, fazer alguma coisa, tudo é projeto, inclusive a nossa carreira, mas pouca gente tem formação em gestão de projetos e lá atrás essa foi uma preocupação minha. Eu senti que precisava conhecer essa administração.

A gente aprende muita coisa, como questão de prazos, como controlar custos, e isso é muito importante na universidade porque a gente acaba se envolvendo com outras coisas, e é importante cumprir os prazos. Você tem metodologia para isso, tem softwares que fazem o cronograma, e tudo isso eu fui conseguindo e aprendendo.

Os alunos também se beneficiam disso, porque vão aprendendo as habilidades, conseguem ter ferramentas para que eles aprendam isso, para que a gente também tente avançar nessas questões.

Formar um pesquisador com conhecimento em gestão de projetos é muito importante e eu levo isso para o pessoal. A ideia é essa. O que trazemos de novo na faculdade é essa preocupação com uma gestão mais profissional e queremos levar esse tipo de conhecimento para a FCF-USP.

Quais são as suas expectativas? Teremos um novo Vonau Flash em breve?

Temos plenas condições para isso. De um lado nós temos um pessoal da universidade que se dedica bastante e tem um conhecimento muito interessante, do outro lado temos as indústrias farmacêuticas que investem na pesquisa para trazer coisas mais avançadas para o mercado, para que as pessoas possam ter uma qualidade de vida melhor, precisamos conectar as duas ambições.

Para isso, a universidade tem que trabalhar, fazer a sua lição de casa, para que quando você sentar para conversar a empresa e a universidade entendam que o processo não é tão burocrático e a empresa precisa entender que precisa investir. É muito comum você sentar com empresas que esperam que a gente desenvolva sem investimento. Tem que colocar dinheiro na pesquisa para que a gente consiga tocar.

“Os dois lados assumem riscos. E os dois precisam se aproximar, fazer a sua lição de casa, para que possamos levar tudo isso que estamos fazendo para a sociedade. Está faltando a conexão”.

Os dois lados assumem riscos. E os dois precisam se aproximar, fazer a sua lição de casa, para que possamos levar tudo isso que estamos fazendo para a sociedade. Está faltando a conexão. Por isso que a universidade precisa dar espaço para todo mundo.

Nós temos hoje vários projetos caminhando com empresas, todo o processo de desenvolvimento em que estamos trabalhando e devemos ter novos produtos no mercado para isso nos próximos anos, seguros de que outros produtos virão. São boas empresas e bons parceiros também. Sem um bom parceiro, não adianta. Nossa ideia é criar outros produtos como o Vonau Flash. E em breve os teremos.

 

 

 

 

 

Fonte: Exame 15.10.2020

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